A relação entre política e saúde mental no país revela um problema sério: a falta de investimento e a prevalência de práticas que aumentam o medo e a desinformação. Essa situação representa uma crise dupla que afeta a saúde da democracia.

Atualmente, a saúde mental é uma das áreas mais negligenciadas. Em 2019, apenas 2,1% dos gastos públicos em saúde foram direcionados para essa área, uma queda em relação a 2,7% em 2001. Especialistas recomendam que países com renda média destinem pelo menos 5% do orçamento da saúde para saúde mental. Essa diferença no investimento pode ser a chave para que milhões de pessoas recebam um tratamento adequado, garantindo cuidado contínuo em vez de fragmentado.

As consequências dessa falta de investimento são evidentes. Em junho de 2022, o Sistema Único de Saúde (SUS) tinha apenas 12.662 leitos em hospitais psiquiátricos e 4.244 em hospitais gerais, resultando em uma cobertura de apenas 0,07 leitos para cada mil habitantes — um número baixo para um país tão grande. Essa realidade gera uma sobrecarga nas urgências, onde as crises aparecem devido à falta de uma base sólida na atenção primária e à escassez de leitos hospitalares, que compromete o cuidado comunitário.

A situação varia bastante entre os países da América do Sul. Em 2020, o Uruguai possuía cerca de 30,9 leitos para cada 100 mil habitantes, enquanto o Chile tinha aproximadamente 8,5. O Brasil, em 2022, continuou com apenas 7 leitos para cada 100 mil habitantes. Essa comparação mostra a gravidade da situação no nosso país.

Além das questões estruturais, também existe uma dinâmica política que impacta a saúde mental da população. A polarização resulta em um ambiente onde as discussões são reduzidas a vilões e heróis, enquanto a desconfiança nas evidências científicas faz com que opiniões pessoais prevaleçam nas decisões governamentais. Isso cria um cenário propício para a disseminação de notícias falsas, que oferecem soluções superficiais para problemas complexos.

Essa atmosfera tem efeitos diretos na vida das pessoas. Em 2022, cerca de 16.439 brasileiros cometem suicídio, um número que ilustra a urgência do problema. O debate público sobre saúde mental não é uma troca de ideias superficial; ele influencia as prioridades e os orçamentos do país. Quando líderes desprezam evidências, a sociedade perde o rumo. A transformação de divergências em guerras culturais compromete a capacidade de resolver conflitos de forma pacífica.

A saúde mental abrange mais do que consultas e medicações; envolve também a qualidade das discussões públicas e a responsabilidade daqueles que têm o poder de influenciar. É necessário que as políticas públicas reconheçam a dor da população, sustentem os serviços de saúde mental adequadamente e se baseiem em dados reais, não em fantasias.

Como psiquiatra, observo diariamente que tratamos sintomas individuais enquanto ignoramos problemas mais amplos na sociedade. É hora de mudar essa abordagem. Para que a democracia funcione, precisamos de cidadãos saudáveis mentalmente, tanto nas consultas médicas quanto nas esferas de decisão política. A liderança deve vir de cima, estabelecendo um exemplo positivo.

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Dr. Ulbiramar Correia

Ortopedista especialista em joelho em Goiânia. Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho e Sociedade Brasileira de Artroscopia e Trauma Esportivo.