Nos últimos anos, a questão da saúde mental passou a ser um tema central nas empresas. De postagens no LinkedIn a campanhas internas, os negócios têm buscado dar visibilidade ao assunto por meio de podcasts e parcerias com startups. No entanto, surge uma pergunta importante: as empresas veem a saúde mental como um benefício ou como parte essencial de sua cultura e estratégia?
Muitas organizações oferecem terapia apenas para ter um selo de qualidade, sem um real compromisso com o bem-estar dos funcionários. São comuns parcerias que se mostram superficiais, uma falta de comunicação que impede o uso efetivo dos serviços e a imposição de barreiras financeiras e operacionais que dificultam o acesso. Depois, as empresas celebram baixo engajamento como se fosse um sinal positivo. Essa prática é conhecida como “mental health washing”, ou a tentativa de dar uma aparência de cuidado sem realmente promover mudanças significativas.
Quando se fala em saúde mental, o ideal é que mais funcionários se utilizem dos recursos disponíveis. Um maior número de pessoas em terapia pode resultar em menos faltas ao trabalho e um ambiente mais equilibrado e seguro. Contudo, muitas empresas parecem adotar uma abordagem oposta, optando por não comunicar adequadamente esses recursos e delegando a responsabilidade ao funcionário, como se bastasse oferecer acesso a um serviço que na prática nunca será usado.
Em um contexto onde milhões de brasileiros recebem um salário mínimo, exigir que o colaborador arque com parte do custo da terapia torna esse recurso praticamente inacessível. Isso transforma o cuidado em um item competitivo com as necessidades básicas, como a alimentação da família.
Os dados alarmantes corroboram essa realidade: em 2024, mais de 472 mil afastamentos foram registrados devido a transtornos mentais, com a expectativa de que esse número ultrapasse meio milhão até o fim do ano. Além disso, a média de presenteísmo nas empresas brasileiras é de 31%, de acordo com um censo sobre saúde mental.
As consequências são sérias: alta rotatividade de funcionários, aumento da sinistralidade nos planos de saúde e indicadores de estresse em larga escala. Apesar disso, algumas empresas ainda tratam a saúde mental como um recurso opcional, ignorando sua importância como um pilar essencial para a proteção e a sustentabilidade do negócio.
É importante entender que saúde mental não é um extra, mas uma parte crucial da gestão de riscos nas empresas. Além de ser um componente de responsabilidade social e ambiental (ESG) e uma obrigação conforme as regras de saúde e segurança do trabalho, ela representa um compromisso ético com todos os colaboradores que contribuem para o sucesso da empresa.
Enquanto algumas empresas garantem acesso real a recursos de saúde mental, investindo em formação de líderes e acompanhamento baseado em dados, outras apenas disponibilizam um aplicativo com a esperança de que ninguém o utilize. A questão fundamental é: a sua empresa deseja apenas parecer que se importa ou realmente quer cuidar da saúde mental de seus colaboradores?
