Saúde
Cirurgia ginecológica: tratar sem retirar o útero

Menos de 30% das histerectomias realizadas atualmente no país são indicadas para casos de doenças benignas como miomas e endometriose, segundo levantamento recente. O número indica uma mudança na prática médica: a retirada do útero deixou de ser a primeira opção para a maioria das condições ginecológicas.
A cirurgia de retirada do útero continua sendo indicada para situações específicas, mas a decisão agora passa por uma avaliação individualizada da paciente. Idade, intensidade dos sintomas, extensão da doença, desejo de engravidar e projeto de vida são fatores considerados antes de qualquer procedimento, conforme explica o ginecologista e obstetra Marcos Vinícius Maia da Mata, especializado em endometriose.
Para miomas, tumores benignos frequentes que podem causar sangramento intenso, anemia e dor, a miomectomia é a alternativa quando há indicação cirúrgica e a preservação do órgão é desejada. O procedimento pode ser feito por histeroscopia, laparoscopia ou cirurgia aberta, dependendo do tamanho e da localização dos nódulos.
Na endometriose, a cirurgia busca remover as lesões preservando os órgãos sempre que possível. A retirada do útero não é tratamento obrigatório e não garante, isoladamente, o desaparecimento de todos os sintomas. A adenomiose, doença localizada na musculatura uterina, também pode ter alternativas clínicas e procedimentos conservadores discutidos antes da histerectomia, de acordo com a extensão do quadro e o desejo reprodutivo da paciente.
Preservar o útero não significa automaticamente preservar a fertilidade, alerta o especialista. Cada doença e cada cirurgia podem interferir de maneira diferente na capacidade reprodutiva.
A histeroscopia permite tratar alterações dentro da cavidade uterina sem cortes no abdômen, com uma pequena câmera introduzida pelo colo do útero. A laparoscopia utiliza pequenas incisões para acessar os órgãos e costuma proporcionar menor dor pós-operatória, menor tempo de internação e retorno mais rápido às atividades, em comparação com a cirurgia abdominal aberta.
A cirurgia robótica oferece visão ampliada e movimentos de precisão, úteis em procedimentos complexos. Não há demonstração de superioridade geral sobre a laparoscopia convencional para doenças benignas, pois o benefício depende do procedimento, da complexidade do caso e da experiência da equipe.
Ter tecnologia disponível não significa que ela precisa ser utilizada. Mulheres com miomas pequenos e sem sintomas podem não precisar de cirurgia, enquanto outras com sangramento intenso, anemia e grandes miomas podem ter indicação cirúrgica. Duas mulheres com a mesma doença podem receber tratamentos completamente diferentes.
Quando a paciente deseja engravidar, a decisão considera idade, reserva ovariana, localização das lesões, cirurgias anteriores e o possível impacto do procedimento sobre a fertilidade. Existem situações em que a histerectomia continua sendo a opção mais segura e adequada, e ela não deve ser apresentada como fracasso do tratamento.
A cirurgia ginecológica moderna avalia quanto é possível preservar e qual será o impacto do tratamento na recuperação, na sexualidade, na fertilidade e na qualidade de vida da mulher. Uma cirurgia bem-sucedida não é necessariamente aquela que retira mais, mas aquela que trata o que precisa ser tratado, preservando o que pode ser preservado, com segurança e respeitando os planos de vida de cada paciente.