Saúde
Miopia: o alerta para doenças oculares graves

Uma em cada três crianças e adolescentes no planeta é míope, segundo dados que apontam a prevalência da condição saltando de 24% em 1990 para 36% em 2023. A projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que, até 2050, metade da população global receberá o diagnóstico, passando de cerca de 2 bilhões para aproximadamente 5 bilhões de pessoas, com a maioria no continente asiático, mas também com grande número no Brasil.
O aumento da miopia não representa apenas a necessidade de usar óculos. A condição envolve o alongamento do globo ocular, o que eleva o risco de doenças graves. Segundo a oftalmologista Luisa Moreira Hopker, do Hospital de Olhos do Paraná, a miopia aumenta a propensão a descolamento de retina, glaucoma e perda visual com a idade. Dados do chefe de Oftalmologia do Hospital Fundação Rothschild, Georges Caputo, ilustram a gravidade: a chance de uma pessoa sem a condição ter descolamento de retina na vida é de 1%, enquanto entre os míopes o percentual sobe para entre 30% e 35%.
O Instituto Francês de Miopia (IFM), um dos quatro únicos centros no mundo dedicados à condição, aponta que a miopia está associada a maior probabilidade de catarata, glaucoma e degeneração macular com o envelhecimento. Os altos míopes, aqueles com mais de 6 graus, correspondem a 10% dessa população e enfrentam riscos ainda maiores. A especialista Elise Philippakis, que apresentou as instalações do serviço em Paris, reforça que essas doenças estão entre as maiores causas de perda de visão na atualidade.
Os fatores para o avanço da miopia incluem genética e mudanças no ambiente. Segundo Hopker, filhos de pais míopes têm maior risco, mas o estilo de vida atual contribui para o problema. As crianças passam mais tempo em ambientes fechados, em atividades que exigem visão de perto e em telas, e menos tempo ao ar livre. A diretora de Relações Médicas e Profissionais da EssilorLuxottica, Olga Prenat, explica que as telas exacerbam o comportamento de concentrar a visão em textos e detalhes que demandam foco. A luz natural e a artificial também estimulam de forma diferente a retina, fenômeno que, quando sai do eixo, está na raiz da miopia.
Novas tecnologias surgiram para conter a progressão do quadro. As lentes para óculos Stellest 2.0, da EssilorLuxottica, lançadas no Brasil, demonstraram em pesquisas de até sete anos de acompanhamento desacelerar em 67%, em média, o avanço do problema. Indicadas a partir dos 6 anos, as lentes possuem microesferas invisíveis a olho nu que corrigem o ângulo de decodificação dos raios luminosos e modificam o estímulo que chega à retina. Para o efeito desejado, as crianças devem utilizá-las ao redor de 12 horas diariamente.
A China, país com mais míopes no mundo, registra que oito em cada dez jovens já integram a estatística da condição. Os cientistas observam dois saltos no surgimento do distúrbio: na infância, a partir dos 6 anos, e depois entre o ensino médio e a vida universitária, conforme aponta Arnaud Ribadeau-Dumas, head da Divisão de Lentes da EssilorLuxottica.